6/30/2026

UNODC: Relatório Mundial sobre Drogas 2026 mostra mercados em rápida transformação

O Relatório do UNODC alerta que o avanço da tecnologia e a instabilidade global estão impulsionando a criação de drogas mais potentes, enquanto o consumo já atinge 331 milhões de pessoas no mundo.

Novas substâncias, expansão do tráfico para diferentes regiões e aumento histórico do consumo marcam a rápida transformação do mercado global de drogas, segundo o UNODC.

Com drogas sintéticas mais perigosas, redes criminosas cada vez mais inovadoras e mudanças nos mercados de opióides e cocaína, a ONU aponta um cenário global de crescente risco e complexidade.

Mercados globais de drogas se transformam rapidamente à medida que a tecnologia, novas substâncias e a instabilidade criam novas oportunidades para o tráfico, aponta relatório do UNODC.
Legenda: Mercados globais de drogas se transformam rapidamente à medida que a tecnologia, novas substâncias e a instabilidade criam novas oportunidades para o tráfico, aponta relatório do UNODC.
Foto: © UNODC

Os traficantes de drogas têm explorado novas tecnologias e a instabilidade global para introduzir novas substâncias, testar rotas e métodos de tráfico distintos e expandir de forma cada vez mais agressiva para novos mercados, afirma o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) no seu Relatório Mundial sobre Drogas 2026, publicado nesta sexta-feira (26).

"Observamos  um aumento sem precedentes no surgimento de novos tipos de drogas no mercado e, de forma preocupante, algumas delas são mais potentes e perigosas do que as anteriores", afirmou a diretora executiva do UNODC, Monica Juma. "E já estamos enfrentando as consequências: milhões de mortes prematuras e anos de vida saudável perdidos; redes de tráfico de droga que afetam economias; a destruição de vidas, comunidades e meios de subsistência; e o agravamento da insegurança e da violência. A necessidade de concentrar esforços em desmantelar os grupos do crime organizado nunca foi tão urgente. Precisamos intensificar as ações de dissuasão, reforçar o compartilhamento de informações e coordenar operações conjuntas, ao mesmo tempo que investimos mais na prevenção e no tratamento".

Estima-se que 331 milhões de pessoas consumiram alguma droga em 2024, ou seja, 6,2 por cento da população mundial com idades entre os 15 e os 64 anos, em comparação com 5,2 por cento em 2014. A cannabis continua a ser de longe a droga mais consumida, com 256 milhões de utilizadores em 2024, seguida dos opióides (63 milhões), das anfetaminas (32 milhões), da cocaína (25 milhões) e do ecstasy (21 milhões).

Traficantes de drogas continuam a inovar

Os fabricantes de drogas ilícitas continuam a desenvolver novas drogas sintéticas para contornar regulamentações e evitar a deteção; em 2024, foram identificados nas apreensões cinco vezes mais tipos de drogas do que antes de 2000. O número de novas substâncias psicoativas (NSP) reportadas nos mercados de drogas atingiu, por exemplo, 755 em 2024, sendo 118 destas substâncias reportadas pela primeira vez.

Uma virada no mercado global de opióides

A proibição de drogas no Afeganistão em 2022 reduziu significativamente a produção ilícita de ópio e heroína. Embora a produção em Myanmar tenha aumentado de 420 toneladas em 2021 para mais de 1.000 em 2025, o aumento nesse país (juntamente com as quantidades produzidas em outros países monitorados pelo UNODC, nomeadamente o Laos e o México) não compensa as quebras registadas no Afeganistão, que em 2022 produziu mais de 6.000 toneladas de ópio.

A crescente disponibilidade no mercado de novos opióides sintéticos, como os fentanilos, os nitazenos e as orfinas, sugere que os traficantes estão em busca de alternativas à heroína. Uma mudança dos opiáceos de origem vegetal para substâncias sintéticas pode representar uma transformação estrutural no mercado global de opióides, com implicações para os padrões de consumo e para os danos associados a essas drogas.

O mercado da metanfetamina é agora global

Novas rotas de tráfico e a expansão gradual da produção de metanfetamina vêm criando novos mercados para esta droga, nomeadamente no Oriente Médio, na África e em partes da Europa. As apreensões aumentaram, em média, 12% ao ano, crescimento impulsionado em grande parte pelas quantidades registadas na Ásia Oriental e no Sudeste Asiático. Embora Myanmar continue sendo o principal país de origem da metanfetamina, a forte demanda também tem atraído fornecedores da América do Norte, da África Ocidental e Austral e do Sudoeste Asiático.

A metanfetamina proveniente da América do Norte também está atravessando o Oceano Pacífico em direção aos países da costa ocidental do Pacífico, contribuindo para o aumento do tráfico e do consumo nas ilhas do Pacífico. No Oriente Médio, as disrupções no mercado do "captagon" decorrente da queda do regime de Assad na Síria e da consequente duplicação do preço de um comprimido em algumas localidades podem levar consumidores dessa substância a migrar para a metanfetamina, cujo consumo tem aumentado na região.

A evolução de perceções sobre a cannabis impulsiona mudanças no número de usuários e nos padrões de tráfico

A produção, o tráfico e o consumo de cannabis estão em evolução, provavelmente em parte devido às mudanças em curso nas percepções desta droga, em um cenário em que diversas jurisdições, nomeadamente na América do Norte, adotaram políticas de legalização e/ou descriminalização.

O número de pessoas que consomem cannabis cresceu 40% na última década, enquanto a prevalência do seu consumo aumentou de 3,8% da população com idades entre os 15 e os 64 anos em 2014 para 4,8% em 2024. As apreensões de cannabis atingiram também níveis historicamente elevados em 2024.

Historicamente, a maior parte do tráfico de cannabis tem ocorrido no âmbito intrarregional, em grande medida devido ao fato de que a cannabis pode ser cultivada em praticamente qualquer lugar. No entanto, o comércio inter-regional, com oferta proveniente da América do Norte, está em crescimento: entre 2015 e 2024, 57 países ou territórios fora da América do Norte identificaram essa como região como origem nas apreensões de cannabis, em comparação com apenas 11 na década anterior.

O aumento da oferta de cocaína pode, em breve, exceder a demanda

A produção de cocaína continuou a crescer em 2024, tendo mais do que quadruplicado nos últimos dez anos atingindo uma estimativa superior a 4.000 toneladas (em forma pura), impulsionada principalmente pelo aumento da produtividade e da área cultivada.

Grupos do crime organizado seguem direcionando volumes crescentes de cocaína para mercados tradicionais e emergentes, buscando maximizar lucros e expandir sua base de consumidores para além dos mercados mais importantes e consolidados na Europa Ocidental e Central, na América do Norte e na Oceania.

Evidências dessa expansão podem ser observadas na África e na Ásia, onde, apesar das quantidades relativamente baixas de apreensões, alguns países registaram as maiores taxas de crescimento de apreensões de cocaína a nível mundial durante o período 2020-2024.

Impacto do consumo de drogas na segurança

O consumo de drogas pode estar associado a crimes de natureza aquisitiva, violência no âmbito familiar e dentro de grupos sociais, bem como à vitimização de - e por parte de - pessoas que fazem uso de drogas. Contudo, estes resultados também são influenciados por fatores mais amplos, como o contexto do consumo de drogas, e as trajetórias pessoais das pessoas envolvidas - incluindo pobreza, situação de rua e problema de saúde mental, além de fatores no nível comunitários, como possível acesso limitado ao tratamento de dependências e a serviços sociais. Estes fatores representam pontos de entrada para esforços de intervenção e prevenção.

Leia o Relatório Mundial sobre Drogas 2026 na íntegra.

Fonte: ONU Brasil


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